“Jaime Fernandes: vi uma cadela minha com lobos”

9 Outubro 2021 – 20 Março 2022

Curadoria: Andreia Magalhães

Centro de Arte Oliva

 

Jaime: “vi uma cadela minha com lobos” é uma exposição dedicada à obra de Jaime Fernandes (1899-1969) que reúne mais de quarenta desenhos provenientes de diversas coleções particulares de Portugal, França, Suíça e Áustria e de instituições nacionais e internacionais, como a Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa) e a Collection de l’Art Brut (Lausanne). A exposição resulta de um trabalho de investigação iniciado em 2019 pelo Centro de Arte Oliva que teve como objetivo a localização dos desenhos que Jaime realizou nos últimos anos da sua vida e que o tornaram inequivocamente um dos mais reconhecidos artistas da arte bruta europeia.

Jaime Fernandes nasceu na aldeia de Barco (Covilhã) onde viveu até aos 38 anos, idade em que a perturbações de esquizofrenia conduziram ao internamento no Hospital Miguel Bombarda (Lisboa) onde viria a morrer em 1969. O artista começou inesperadamente a desenhar quando tinha mais de sessenta anos e estava internado há mais de trinta. Os seus desenhos realizam-se a partir de uma densa trama de linhas, sobretudo criadas a partir de esferográficas coloridas, em que cria um mundo de figuras ancestrais povoado por animais imaginários, figuras humanas e antropomórficas.  O mundo interior de Jaime expressou-se também através de textos, alguns escritos nos versos dos desenhos outros em cartas endereçadas à mulher. Das várias frases soltas que escreveu, e que relatavam as suas visões ou sonhos e pensamentos insondáveis, retira esta exposição o seu título.

O reconhecimento do valor artístico da obra de Jaime aconteceu anos depois da sua morte, mas surpreendentemente ultrapassou as fronteiras do país.  Em 1980, setenta e quatro desenhos de Jaime puderam ser vistos numa exposição realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, a maior dedicada ao autor; um ano depois, cerca de cinquenta desenhos figuraram na Bienal de S. Paulo na exposição Arte Incomum. A partir de então, os desenhos dispersaram por Portugal, Estados Unidos e Europa e foram integrados em diversas publicações e exposições, nas quais a sua obra tem sido valorizada como uma das significativas da história da art bruta europeia. Em Portugal, a obra alcançou estima de culto, mas continua a ser sobretudo conhecida através do filme Jaime (1974) de António Reis (1931-1991) e Margarida Cordeiro (1938) e não tanto pelo contacto direto com os desenhos, que poucos terão visto.

A presente exposição reúne desenhos de Jaime, sobre os quais novas informações e conhecimento foi produzido. A par dos desenhos outros elementos documentais e artísticos participam na exposição, para uma nova leitura e relacionamento com uma obra que esteve distante do público nos últimos quarenta anos.